Entre aspas

Citações arrematadoras, trechos luminosos e traduções livres.

Por Camila Teixeira.

Apr 07
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Cordilheira

Se me lembro bem da proposta inicial do projeto Amores Expressos, os autores convidados viajariam para cidades diferentes ao redor do mundo com o compromisso de produzir um romance, tendo sua cidade de destino como pano de fundo. Ok. Outro aspecto é que as histórias deveriam falar de amor. Pois bem. Ao terminar Cordilheira, obra festejada de Daniel Galera, publicada pelo selo no final de 2008, me pergunto: onde está a história de amor em sua trama? Chego a duvidar da minha sensibilidade, ao não identificar manifestações de amor em Cordilheira. Estaria no desejo louco da protagonista, Anita, em ser mãe? Em seu amor volátil pelo namorado? Nas lembranças que guarda de seu pai morto? O que Anita ama?

Durante toda a leitura procurei por esta resposta. Talvez tenha lido errado, mas o fato é que Anita não ama nada. Não existe amor em Cordilheira.

Dito isso e superada uma expectativa frustrada, o livro de Daniel Galera é um salto em relação às duas obras anteriores, Até o dia em que o cão morreu e Mãos de Cavalo. Na primeira, Daniel brinca de roleta-russa. Arrisca ao escolher soluções fáceis, como a morte do cão ou a doença de Marcela, como se estivesse testando o humor de seus leitores. Na segunda, a impressão de que o autor sentia na pluma o peso de ser publicado por uma grande editora me acompanhou por todas as páginas. Apesar da coerência da história, não há ali a pegada de Galera, sua criatividade, tão evidentes nos contos de Dentes Guardados.

Quanto ao Cordilheira, apesar de ressalvas e poréns para algumas passagens que descrevem o comportamento feminino, o livro merece os elogios que recebeu. Nele, o autor narra a história de Anita, uma jovem escritora de relativo sucesso e que agora renega o livro que lhe deu notoriedade. Anita é irredutível em seu desejo de engravidar. Apesar de viver de alguns bicos, e com um namorado que prefere adiar a paternidade, a escritora bate o pé e faz manha, sem dar ouvidos a quem ousa contrariá-la em sua vontade. Cansada dos tormentos do seu mundinho, do fantasma da morte que ronda sua história pessoal, a personagem aceita um convite para falar de sua obra na feira do livro de Buenos Aires. Lá conhece Holden e seus amigos tão misteriosos quanto esquisitos, que não economizam no fervor e na paixão para defender seus livros favoritos. É neste ponto que realmente começa a trama de Cordilheira, uma alfinetada sobre a importância que se dá à literatura, a de L maiúsculo e a de L minúsculo. O tema ganha contornos originais nesta ficção, com o desenrolar da história sinistra dos personagens que Anita encontra em Buenos Aires. Rituais, mistério, um pouquinho de violência e sexo são manipulados com habilidade pelo autor para desenvolver o tema de Cordilheira.

Sobre Anita, sem dúvida, é uma moça atormentada, mimada (apesar de órfã, o que não deixa de ser estranho) que não sabe bem o que quer da vida. Mas o que incomoda, o que levanta a dúvida sobre sua força como personagem, e também sobre a pertinência do seu desejo de ser mãe, é sua completa falta de ternura pelo que quer que seja. Anita não vê o mundo com bons olhos, vive com os fantasmas da morte e do suicídio, e ter uma percepção positiva sobre o mundo é condição fundamental para que uma mulher queira colocar um filho nele.

Por outro lado, elementos presentes nos primeiros contos de Daniel, como os rituais, sendo alguns macabros, e também de uma certa violência gratuita, como o acidente no meio da estrada em Ushuaia, deram fôlego ao texto. Em Cordilheira, ao invés destas cenas terem um fim em si, elas são costuradas e justificadas pelo mesmo tema, que é o papel da literatura, o que realça ainda mais a dramaticidade das cenas.

Apesar de ter passado boas horas na companhia de Anita, arrisco afirmar que o forte de Daniel ainda é o conto. A naturalidade com que coisas bizarras acontecem, a forma como o autor discorre sobre sentimentos, e principalmente a maneira como ele consegue traduzir sensações tão profundas de maneira muito simples, tudo isso tem impacto ainda maior em seus textos curtos e suas frases bem torneadas. Espero seu próximo livro, torcendo para que seja de contos.

Trecho selecionado:

"É comum ficarmos sem compensação nenhuma para um desastre, uma agressão, um erro, uma doença, o fim de um amor, a perda de uma pessoa amada. É uma questão de perspectiva, ou de fé. Nascemos com um prazo limitado para interpretar o mundo. Fazemos o que podemos. O legado de todos que nos precederam nesse esforço pode ajudar ou confundir, e em última instância ninguém pode provar nada. Atribuir um propósito superior a um lance qualquer da vida é construir uma ficção muito pessoal. Dar sentido ao mundo é um ato criativo. Uma visão de mundo é uma narrativa." p. 74.

GALERA, Daniel. Cordilheira. São Paulo: Companhia das Letras. 2008.

Apr 06
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Um passeio em Silent Hill

Avançando pelas páginas de A Estrada, de Cormac McCarthy, tenho a nítida impressão de estar em Silent Hill. Pai e filho perambulam entre os perigos de uma terra devastada, onde as ameaças estão por todos os lados: na neve que cai, nas árvores incendiadas, nas cidades desertas, no frio, na falta de comida, na violência dos pequenos grupos de humanos que aterrorizam os que atravessam seu caminho. A desolação, o suspense constante, a sensação de um perigo próximo são os rastros deixados pelo autor, em cada parágrafo construído. Ainda estou na metade, e dois trechos merecem destaque:

"Ele começou a descer os degraus toscos de madeira. Enfiou a cabeça ali e acendeu o isqueiro e varreu a escuridão com a chama como se fosse uma oferenda. Frio e umidade. Um fedor terrível. O menino agarrado ao seu casaco. Ele podia ver parte de uma parede de pedra. Chão de argila. Um velho colchão manchado de escuro. Ele se agachou e desdeu mais um pouco e segurou a luz estendida. Amontoadas junto à parede estavam pessoas nuas, homens e mulheres, todos tentando se esconder, ocultando o rosto com as mãos. No colchão estava deitado um homem cujas pernas estavam faltando até a altura dos quadris e os cotos escuros e queimados. O cheiro era hediondo." p. 93-94

"Pegou a mão do menino e colocou o revólver nela. Pegue, ele sussurrou. Pegue. O menino estava aterrorizado. Colocou o braço em torno dele e o abraçou. O corpo tão magro. Não tenha medo, ele disse. Se eles te acharem, você vai ter que fazer isto. Está entendendo? Shh. Não chore. Está me ouvindo? Você sabe como fazer. Coloca dentro da boca e aponta para cima. Faça rápido e como força. Está entendendo? Pare de chorar. Está entendendo?" p. 95

Tem coragem?

McCarthy, Cormac. A Estrada. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. Tradução de Adriana Lisboa.

Apr 03
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Sobre 11 de setembro

Windows on the world traz duas histórias paralelas: a do próprio autor, Frédéric Beigbeder, que visita a Torre Montparnasse, a maior de Paris, para tentar imaginar como teriam sido os últimos minutos das vítimas do World Trade Center; e uma ficção, na qual imagina a trágica visita, no dia do desastre, de um pai com seus dois filhos ao restaurante do WTC que dá nome à obra. O autor faz uma reflexão sobre o fatídico dia, e também sobre aspectos da vida moderna, como a midiatização dos eventos e o papel da literatura. Recheado de referências culturais, frases de impacto, típicas do estilo Beigbeder, o livro ganhou o Prêmio Interallié 2003, um dos mais importantes da França, criado em 1930 por jornalistas para recompensar romances escritos por jornalistas.

Aqui vai uma seleção de grifos:

"Minha liberdade é vazia. Pois já que posso fazer tudo, não faço nada". p. 207.

"Se Deus existe mesmo, fico me perguntando que raios ele fazia naquele dia".p. 239

"Queremos ser amados porque estamos machucados. Queremos ter um sentido. Servir para alguma coisa. Dizer alguma coisa. Deixar um rastro. Não mais morrer." p.266

"Hoje, os livros devem chegar onde a TV não vai. Mostrar o invisível, dizer o indizível. Talvez seja impossível, mas esta é sua razão de ser." p. 359

BEIGBEDER, Frédéric. Windows on the world. Folio. 2003. Tradução livre.

Feb 21
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Quero ser Jonathan Safran Foer

Agora que terminei de ler A História do Amor, da Nicole Krauss, me dou conta de que as motivações que me levaram a escolher este livro, a insistir e terminar a leitura foram errôneas.

Não foi o título, nem a capa, nem uma passagem específica, nem a recomendação de alguém que me fez começar o livro da Nicole. O que me impusionou a procurar alucinadamente por sua obra foi saber que ela era casada com Jonathan Safran Foer. No fundo, eu alimentava esperanças secretas de encontrar em sua História, ou na maneira como ela escreve, resquícios de Oskar Shell, herói de Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, do Foer. E o pior é que encontrei.

A História do Amor é a história de um livro, chamado, advinhe, A História do Amor. O tema é muito parecido com o de Extremamente Alto. Ambos têm a guerra como pano de fundo.  Contam histórias de família, de pessoas que se perderam no tempo e no espaço, nas quais a morte da figura do pai é o motor que leva à ação os personagens principais, cheios de manias e idiossincrasias adoráveis.

Na trama de Nicole, a protagonista, uma adolescente chamada Alma, ganhou este nome em homenagem à personagem de A História do Amor, que seu pai deu à sua mãe quando ainda namoravam. Intrigada com a coincidência, a Alma adolescente vai em busca da Alma do livro para tentar desvendar segredos de sua família. O que Nicole quer é que a semelhança entre as duas Almas faça com que aquelas pessoas perdidas, no tempo e no espaço, se encontrem.

O livro é uma delicadeza aguda, de uma doçura e de uma suavidade extremamente bem escritas. Isso não dá pra negar. A grande astúcia da autora foi a escolha do nome de sua personagem, que acredito não ter sido acidental. O nome escolhido dá margem para jogos de palavras (pelo menos no português) e interpretações secundárias, como as do parágrafo acima: o encontro das Almas, a busca pela Alma do livro. Tudo muito poético, no melhor estilo Nicole Krauss.

Mas o fato de ter esperado e, justamente, encontrado semelhanças em relação a Extremamente Alto me fez gostar menos da leitura. A todo momento eu esperava encontrar Oskar, sua inteligência e sua tristeza. A cada página eu esperava encontrar a criatividade do Foer, as passagens surpreendentes, as cenas duras e as mais familiares. Mas não encontrei. Apesar da enorme semelhança entre os livros de Nicole e de Jonathan, seja na estrutura do texto, nos capítulos intercalados, na personalidade dos personagens principais, em suas motivações, não encontrei na história de Nicole a mesma emoção contida no livro de seu marido.

Tenho até uma ponta de vergonha de assumir que procurei pelo Oskar no livro errado. Mas acho que se a autora tivesse me dececpcionado nesta minha expectativa, se ela tivesse composto uma história realmente original, eu teria ficado agradavelmente surpresa com sua perspicácia. Nicole assumiu o risco, bastante perigoso, de flertar com uma história e um personagem extremamente marcantes, como os do Foer. Não conseguiu o mesmo efeito. No final das contas, se A História do Amor não fosse tão parecido com  Extremamente Alto, a Alma de Nicole teria, certamente, tocado a minha.

Feb 11
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Post Secret

"Pela primeira vez na vida (tenho 40 anos) estou animada com as coisas que quero fazer, e não ansiosa com as coisas que eu acho que deveria estar fazendo."

Aqui.  

Jan 04
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Curativo

"Minha mãe nunca deixou de amar meu pai

Ela conservou seu amor por ele tão vivo quanto no verão em que eles se conheceram. Para conseguir isso, ela afastou a vida. As vezes ela vive apenas de agua e ar durante dias. Sendo o unico espécime conhecido de vida complexa capaz de fazê-lo, deveriam atribuir o nome dela a uma espécie. Um dia tio Julian me contou que o o escultor e pintor Alberto Giacometti disse que, às vezes, para pintar uma cabeça, era preciso abandonar o resto do corpo. Para pintar uma folha, é preciso sacrificar toda a paisagem. (…) Minha mãe não escolheu nem uma folha nem uma cabeça. Ela escolheu meu pai e, para preservar um certo sentimento, ela sacrificou o mundo.” (p. 70)

"E mesmo você sendo maior, você se sentiu tão perdido quanto uma criança. E mesmo com teu orgulho ferido, você se sentiu tão vasto quando teu amor por ela." (p. 87)

"Bruno ?

Oi.

Não é magnifico estar vivo ?

Não, obrigado, não preciso de nada.

Não estou tentando vender nada. É o Leo. Escuta. Eu estava sentado aqui no Starbucks enquanto tomava café e, de repente, isso me abalou.

Quem te abalou ?

Ach, escuta. Eu fiquei abalado de pensar que era magnifico estar vivo. Vivo ! E eu queria te dizer isso. Você entende o que eu quero dizer ? Estou dizendo que a vida é uma beleza, Bruno. Uma coisa bela e uma alegria eterna.

Houve um silêncio.

Sim, como você achar melhor, Leo. A vida é uma beleza.

E uma alegria eterna, acrescentei.

Isso, disse Bruno. E uma alegria.

Aguardei.

Eterna.

Quando eu ia desligar, Bruno acrescentou: Leo?

Oi.

Por acaso você quer dizer a vida humana ?” (p. 115)

Nicole Krauss. L’histoire de l’amour. Gallimard, 2006. Tradução livre.

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Elogio à solidão

“Tem gente que só sabe ser feliz escondido.”

Ivana Arruda Leite

Nov 26
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Apanhados

"Pensei que as duas feias, Marty e Laverne, fossem irmãs, mas ficaram muito ofendidas quando perguntei. Estava na cara que nenhuma das duas queria ser parecida com a outra, o que era compreensível." p. 76

"Isso é uma coisa engraçada com as garotas. Sempre que agente fala com uma garota sobre algum camarada que é um perfeito sacana - um mau caráter ou muito mascarado e tudo - ela vai logo dizendo que o sujeito tem um complexo de inferioridade. Talvez tenha, mas isso não impede, na minha opinião, que o cara também seja um bom filho da puta.” p. 133

"Esse é o problema todo. Não se pode achar nunca um lugar quieto e gostoso, porque não existe nenhum. A gente pode pensar que existe, mas, quando se chega lá e está completamente distraído, alguém entra escondido e escreve ‘Foda-se’ bem na cara da gente. É só experimentar. Acho mesmo que, se um dia eu morrer e me enfiarem num cemitério, com uma lápide e tudo, vai ter a inscrição ‘Holden Caulfield’, mais o ano em que eu nasci e o ano em que morri e, logo abaixo, alguém vai escrever ‘Foda-se’." p. 197

J. D. Salinger. O Apanhador no Campo de Centeio. Editora do Autor.

Oct 16
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Paixão no primeiro capítulo

- Para que precisa de mim? (…) Ainda não respondeu minha pergunta - disse eu.

- Porque você é o que pedi a Deus, filho. Por isso quero você. Porque tem o dom.

- Dom? Não tenho dom nenhum. E, mesmo que tivesse, como é que ia saber, sr. Maestro? (1)


Eu era um capetinha manhoso, um vigarista mirim, um malandro de língua rápida e centenas de truques, e lá estava eu, atolado no meio do nada, vivendo debaixo de um céu que só trazia mudanças de tempo - a maioria delas ruim. (2)

Paul Auster. Mr. Vertigo, (1) pg. 8; (2) pg. 19. Editora Best Seller, 1994.




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Nada a acrescentar

"A ‘reentrada’ no Brasil tem sido difícil. (…) Hoje eu estou num processo de des-embrasilamento. (…) Acho que a “vida cigana” me fez bem neste sentido. Aprendi que sou alguém independente do entorno. O país não me define. Então sigamos em frente, cada qual pátria de si. É algo libertado.”

Entrevista de Paulo Polzonoff Jr. a Julio Daio Borges, no Digestivo Cultural.